sexta-feira, 25 de maio de 2018

Das grandes questões que se colocam...

Acordei às seis e meia da manhã com dores de garganta. Ao pequeno-almoço tomei o comprimido do estômago e um para as dores de garganta. Foi só um paracetamol de 500mg, não se entusiasmem.

Passei a manhã com dores de garganta e dores de estômago.

Estou aqui indecisa entre tomar algo mais forte para a garganta e acabar com essas dores, sabendo que vou aumentar as do estômago, e não fazer nada e esperar que tudo isto passe.

Aceitam-se apostas.

Da Maratona de Madrid... - VII

Eu avisei que ia fazer render o tema...

Queria só mesmo deixar algumas notas soltas sobre a prova em si.

A organização foi excepcional. Desde a feira, onde todo o processo de levantamento do dorsal foi extremamente rápido, à pasta party, à prova em si, onde foi tudo impecável. Eu não tenho grande termo de comparação, não é verdade? Mas achei mesmo que funcionou tudo lindamente.

Também no próprio dia, o acesso às diferentes caixas de tempo estava bem organizado e fluído, e não havia falta de casas-de-banho! Acho que todos estes pequenos detalhes fazem muita diferença na forma como vivemos as provas.

Já na prova em si, havia alguns pormenores curiosos: ao longo do percurso havia imensos patinadores que iam andando para trás e para frente, e que distribuíam coisas como água, vaselina e um spray para as dores. Spray este ao qual eu consegui resistir até aos 35km, mas depois via toda a gente a pô-lo e achei que as minhas coxas e as minhas contraturas habituais, mereciam. Sabem aquela dica básica de não experimentar nada novo no dia uma prova? Eu achei melhor ignorá-la.

A única coisa que faltou? Laranjas. Laranjas, Senhores! Havia muitas bananas, água, isotónico, até géis. Mas não havia laranjas!... Deixei o recado no questionário de avaliação, obviamente.

Quanto ao percurso... É engraçado... Mas é duro. Ter escolhido esta Maratona para estreia, foi mais uma das minhas brilhantes decisões. Tem muitas subidas, algumas muito inclinadas, algumas muito longas. O gráfico fala por si. 


A pior parte, para mim, foi mesmo a Casa de Campo, como já referi. Mas, de resto, é uma forma curiosa de conhecer Madrid, de percorrer os locais principais, de andar pelas ruas mais importantes e de perceber que a cidade é, de facto, bastante grande. E nada plana, contrariamente ao que se possa pensar!...

Em resumo: recomendo vivamente! Talvez não para uma estreia na distância mí(s)tica, mas para quem quer fazer uma prova destas num sítio diferente. Madrid é relativamente perto, não sai caro, e é uma cidade que vale a pena conhecer.

Se eu lá volto? Pois que não!


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Das coisas em que eu penso durante as minhas insónias...

Ando numa fase gira de insónias. Raramente consigo dormir depois das seis da manhã. Podia aproveitar para ir treinar? Podia. Mas não era a mesma coisa.

Domingo eram quatro e meia da manhã e eu estava acordadíssima. Estava de rastos depois da Estrela, tínhamo-nos deitado já depois da uma e, ainda assim, eu andei às voltas na cama...

Ontem, eram seis e meia e eu estava deitada, preocupadíssima a pensar que tenho de ir comprar um robe e duas camisas de dormir. Dramas do primeiro mundo, portanto.

Soluções milagrosas para que eu possa voltar a dormir? Ou alguém que sofra do mesmo mal e esteja disponível para jogar à batalha naval e coisas afins?

terça-feira, 22 de maio de 2018

Da Maratona de Madrid... - VI


Faz hoje um mês. Foi há um mês atrás que eu fiz a minha primeira Maratona e recebi esta medalha. Esta medalha que continua na mesa da sala, para que olhe para ela, e para que me lembre daquilo que consegui fazer.

Com tudo o que aconteceu entretanto, parece que foi noutra vida. Mas, de facto, foi há exactamente um mês.

Às vezes, ainda não acredito bem. Às vezes, esqueço-me do que fiz. Às vezes, ainda não sei como fui capaz.

Ainda não me permiti sentir-me verdadeiramente feliz por isso. Talvez um dia. Mas, por outro lado, quando me perguntam pela prova, eu só me lembro das coisas boas. Eu só me lembro que gostei, que valeu a pena, que não fora tudo o resto, eu teria sido muito feliz na Maratona de Madrid.

E esta medalha, que pesa (literal e figurativamente) mais do que qualquer outra que eu tenha, vai ter de ganhar um lugar especial cá em casa, que ainda não sei bem qual é. Para que eu me lembre. Para que eu não me esqueça. Para que eu saiba. Que quando queremos muita uma coisa, que quando nos dedicamos, que quando acreditamos, conseguimos coisas incríveis!

sábado, 19 de maio de 2018

Do Estrela Grande Trail 2018... - II

Pois que está feito.

Eu sabia que não ia ser uma prova tão feliz como a do ano passado. Era difícil, para não dizer, impossível.

Ainda assim, não esperava que fosse tão menos feliz!...

Lição número 1 nesta luta Pessoas VS Serra da Estrela: a Serra ganha sempre. Não vale a pena.

Lição número 2: ir fazer uma prova na Serra da Estrela sem treinar, é disparate. Para não dizer, pura burrice. 

Lição número 3: nunca, mas nunca, subestimar a Serra. Mesmo que seja uma prova curta. Mesmo que seja uma prova que já conhecemos. Mesmo que nos achemos "os maiores e que vamos lá e fazemos aquilo na boa". Não. Não fazemos.

Ou melhor, fazemos. Mas em sofrimento. E pagar para sofrer, ainda que seja uma opção perfeitamente válida porque cada um sabe de si, não é bem o que eu quero para mim.

Depois deste momento pedagógico para referência futura, e porque eu acredito que é importante aprendermos com os erros (e se eu hoje aprendi!), passemos ao que interessa.


Acordámos às seis e um quarto, com esta vista da janela do quarto do hotel nas Penhas da Saúde, e com o fresco dos seis graus a fazer-se sentir. O hotel, a muito custo, preparou um saco com um pequeno-almoço improvisado. Valeu-nos termos vindo prevenidos de casa. Sim, eu vim de Lisboa com panquecas e iogurtes e fruta e frutos secos e tudo e tudo e tudo.

Saímos para Manteigas e às oito foi a partida dos loucos (o meu e os outros), que iam para os 49km. Restavam-me duas horas até à minha prova!... Fui beber um chá, fui à casa-de-banho, descobri um tasco com wi-fi, vi e revi o percurso e o material, e lá chegou a minha hora.


Estas partidas são sempre relativamente calmas: éramos perto de cem atletas, o que é muito pouco. Mas o entusiasmo era muito e até eu começava a entrar no espírito. Dez em ponto e lá fomos. A prova começa com um quilómetro a descer, e depois é praticamente sempre a subir até aos 9km (com umas partes planas ou ligeiramente a descer lá pelo meio, mas coisa pouca).


Aproveitei para ir tirando fotos. Muitas fotos. Conseguem ver o coração da montanha?

A prova corria relativamente bem, eu ia a fazer o ritmo que desejava (ligeiramente abaixo do do ano passado), e claro que me sentia cansada. Mas ia gerindo. Sem muita pressão, e sabendo que a primeira parte da prova era para ser feita mais a caminhar do que a correr. Acabei por perder algum tempo nesta fase porque a dada altura me aproximo de uma rapariga que estava com uma senhora e não parecia muito bem. E não estava. Deve ter tido uma quebra de tensão, e acabou deitada no chão, de pernas para o ar, com outra corredora a dar-lhe isotónico e eu a dar-lhe uma goma, para ver se a coisa melhorava. Eventualmente, acabou por melhorar.

Estava muito, muito calor. Houve alturas em que não tínhamos qualquer sombra e estava muito quente, de facto. A Serra engana, também nisto. Porque achamos que aquilo é fresco e, na verdade, não é tanto assim... É muito fácil distrairmo-nos e não bebermos água suficiente, por exemplo. E depois acontecem estas coisas... Que, para mim, são assustadoras e são uma das coisas que me preocupa sempre no trail. Há momentos em que estamos em sítios em que, se nos acontecer alguma coisa, vai demorar até que nos possam ir buscar!... Daí que as exigências com os materiais obrigatórios possam parecer chatas, mas podem mesmo fazer toda a diferença!...


Lá continuei a correr e esta parte foi já depois do abastecimento, no Poço do Inferno, naquela que é a pior subida de toda a prova. Na foto não dá para perceber bem, mas esta subida era bem dura e difícil, pelo meio de rochas, em modo escalada e sem ter onde pôr os pés. Um dos problemas de ser baixinha revela-se no trail: a ginástica que eu faço quando tenho de subir estes "degraus" gigantes...


E aqui começa a descida, já com Manteigas ao fundo. Se no ano passado eu adorei a descida, porque fui sempre sozinha e levezinha por ali a baixo, qual cabra do monte a saltitar de rocha em rocha, este ano a descida foi particularmente difícil. Ao ponto de eu ter feito algumas partes a caminhar. Esta parte do percurso é chata porque o solo é praticamente sempre irregular, com pedras grandes e pedras pequenas soltas, e obrigam a uma grande concentração para vermos bem onde pomos os pés. Isso e obrigam a uma grande ginástica nos tornozelos. E o meu tornozelo direito não gostou dessa ginástica. E eu tive dores. Muitas. E depois a coxa esquerda juntou-se à festa. E eu tive dores. Muitas. E percebi que estava a fazer um tempo miserável em relação ao ano passado. E entre as dores e a desmoralização com o tempo que estava a fazer, foram uns últimos quilómetros difíceis.


Mais eis que volto a entrar em Manteigas. Faço aquela subida final maravilhosa. E dou comigo na passadeira amarela, com o pórtico à minha frente.

Na lateral do corredor final, algumas pessoas batem palmas e incentivam, o speaker pede um esforço final para acabar a correr e um sorriso, eu correspondo, o fotógrafo prepara a objectiva, eu passo o pórtico vermelho da Prozis, já só faltam uns metros para o pórtico final, e eis que sou ultrapassada por uma atleta, que se mete à minha frente de braços abertos e acaba a prova primeiro do que eu.

E eu fiquei parva, sem reacção. Eu sei, se calhar, sou eu que ando demasiado sensível. Eu sei, o problema sou eu, não ela. Mas confesso que mexeu comigo e me deixou com um sentimento triste em relação à prova e ao seu final. Esta atleta esteve o tempo todo atrás de mim, excepto quando foi o abastecimento, porque eu parei mais tempo do que ela. Nem duzentos metros depois do abastecimento, eu ultrapassei-a e fui sempre à frente dela. Sempre. Talvez com a minha lentidão na descida ela se tivesse começado a aproximar, e na subida final em Manteigas, eu apercebi-me que ela vinha atrás de mim. Mas atrás, sempre atrás.

Eu jamais seria capaz de ultrapassar uma atleta que fez a prova toda à minha frente, a três metros da meta!... Que gozo é que isso dá?...

Eu sei. O problema é meu. Eu é que estou errada. Ela tinha todo o direito de fazer o que bem entendesse e acabar a prova como bem queria. Eu sei. Estou a escrever a quente e um dia vou arrepender-me.

Mas fiquei triste. Pronto. Deve ser mesmo por andar sensível. Ignoremos.


Ainda está para nascer um pórtico mais bonito do que este! Gosto mesmo dele e não resisti a tirar-lhe mais uma foto, ainda que não tenha tido vontade alguma de tirar uma foto a mim mesma depois da prova.



Deixo-vos o gráfico para verem como é uma prova gira!...

Então e o resultado? Francamente pior do que em 2017, claro está. Acabei com o tempo oficial de 2h29m16s. Curiosamente, fiquei pouco pior classificada do que no ano passado em termos gerais: 44º da geral (o ano passado tinha ficado em 41º), 13º dos femininos (o ano passado tinha ficado em 11º), só piorei muito no escalão, em que passei de 4º para 8º...

Claro que isto não interessa nada, que o que interessa mesmo é participar e chegar ao fim, e yada yada yada... Digo eu a mim mesma para me convencer.

A prova foi todo um misto de emoções. Por um lado, o meu lado racional a dizer-me que eu não tinha treinado nada (lembrei-me hoje que o meu último treino de trail foi... em Janeiro!) e era impossível fazer melhor do que no ano passado. Por outro, o meu lado emocional, a querer que eu me superasse.

No fim de contas... Isto não interessa mesmo nada e agora vou para Manteigas outra vez, esperar pelo louco, e aproveitar o resto do fim-de-semana, que bem preciso. Segunda-feira vai ser um dia importante e eu quero esquecer-me disso até lá!...

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Do Estrela Grande Trail 2018... - I

E amanhã lá vou eu em direcção à Serra da Estrela, para mais um Estrela Grande Trail.

Não sei bem o que vou lá fazer. Acabei de ler o relato do ano passado, e preocupa-me ligeiramente saber que este ano vai ser diferente. Completamente diferente.

Se o ano passado estava super nervosa e morta de medo com o que ia encontrar, ao mesmo tempo que me sentia entusiasmada porque era o meu 3º ou 4º trail e, sem dúvida, o mais difícil, este ano estou mais em modo "vou lá passear e não quero saber, só espero não sofrer muito".

Esta ida à Estrela não estava exactamente nos planos. Quando o ano passado acabei a prova, e feliz e contente que estava com o meu resultado, disse que gostava de lá voltar para tentar um 3º lugar. Uma pessoa pode sonhar, não é verdade? Mas o louco mais louco que eu, a quem a prova correu terrivelmente mal (e a muitas outras pessoas que fizeram os 49km porque, de facto, houve muita coisa que não correu bem e não foi só o calor excessivo), disse que não queria lá voltar. E eu nunca mais pensei nisso.

Entretanto surgiu a maratona, treinos e treinos e treinos, e eu com outras preocupações.

A dada altura, o louco mais louco que eu começou a olhar para o calendário de provas e a perceber que tinha de ir à Estrela. Ou melhor, que a Estrela era a opção mais viável entre todas as disponíveis que o permitiam cumprir o objectivo que tinha: fazer o ponto que lhe falta para em 2019 irmos a Chamonix. Eu em modo passeio para me deliciar com aquelas paisagens, ele em modo louco no seu melhor, para ir sofrer no UTMB. Opções.

E foi assim que dei por mim inscrita no Estrela Grande Trail. No trail mais curto, claro. Mas não deixa de ser um trail na Estrela. Considerando que desde a Maratona corri exactamente 13,22km, o que não chega sequer à distância do trail, isto promete.

Resta-me a esperança de achar que vou tirar fotos bem giras, já que não vou correr.

Por outro lado, estou a precisar desesperadamente de uma coisa destas. Preciso de estar sozinha. De estar no meio de lado nenhum, rodeada de verde e de natureza. De não pensar em nada. De pensar em tudo. De me sentir fisicamente cansada, para que não seja apenas o esgotamento psicológico a pesar. Preciso de desligar do mundo. De estar eu e os trilhos. De me perder. De me encontrar. De me preocupar apenas com as coisas simples durante umas horas. Tenho pensado muito em voltar à terapia. Mas talvez seja esta a verdadeira terapia da qual eu preciso.

Bom fim-de-semana, Mundo!

domingo, 13 de maio de 2018

Da Maratona de Madrid... - V

E foi assim que eu entrei na segunda fase da prova, para mim. Se a primeira correu bem melhor do que esperava, e me sentia relativamente tranquila e confiante, a partir daqui, tudo mudou.

Tinha definido como objectivo a meta de fazer os primeiros 25km sem parar de correr. Os meus dois treinos mais longos tinham sido, precisamente, de 25km. Entretanto, lembrei-me que nenhum deles tinha sido inteiramente a correr (o último tinha sido uma miséria e no primeiro tinha caminhado 200 metros numa subida pavorosa), pelo que, na verdade, a distância máxima que eu tinha feito a correr era a de uma meia-maratona. Ainda assim, depois de fazer os 25km, não quis ficar por aí. Quis tentar os 26, depois os 27, depois os 28. Foi por pura casmurrice que quis chegar aos 30km sem parar de correr. E cheguei. Porque precisava de provar a mim mesma que era capaz. E fui. A partir daí, acho que morri. Mal o relógio marcou os 30km, encostei e comecei a caminhar. Num movimento estranho e desconjuntado, depois de tanto tempo a correr. Não sei se é a isto que chamam o muro. Talvez. Mas sei que morri. Não ajudou nada que este momento tenha coincidido já com o percurso dentro da Casa de Campo. Aquele parque infernal. O calor. O chão de terra batida. A monotonia do percurso. A falta de apoio. Desmoralizei mesmo e só via gente a caminhar à minha volta. Estávamos todos desanimados.

Houve, no entanto, um momento de esperança renascida quando tomei o gel da Gu. Se houve decisão sensata que eu tomei ao longo do dia, foi a de guardar este gel para este momento. O gel é espesso. Muito espesso. Mas foi, literalmente, como estar a comer um brigadeiro. E se há coisa que me pode dar ânimo, seja em que circunstância for, é a sensação maravilhosa de estar a comer um brigadeiro. Foi o meu momento zen de introspecção, para tentar ganhar forças para o que aí vinha.

Andei cinco quilómetros a sofrer naquele parque interminável. Foram, sem dúvida, os piores 5km da prova. A tentar alternar corrida e caminhada. Sem muito sucesso. Quebrei muito aqui. Mas, eventualmente, talvez porque o gel começou a fazer efeito, consegui ganhar coragem para voltar a correr e o parque estava a chegar ao fim. Claro que o parque terminava numa subida horrível. Claro. Mas, depois disso, já depois dos 35km, tivemos uma folga de subidas, tivemos um abastecimento, e  começámos a descer ligeiramente. A música certa tocou e eu fui buscar forças não sei bem onde.



Lá fui andando. E correndo. E andando. Mais correndo do que andando, e os loucos dos espanhóis que só gritavam "ya lo tienes!". Já faltava pouco. Muito pouco. E eu comecei a achar que, mesmo que fizesse o resto a caminhar, estava feita.

Mas eu não queria fazer o resto a caminhar. Tinha ido para lá com um objectivo: fazer menos de cinco horas. E havia de conseguir. Mesmo que nesta fase tenha percebido que o grande desfasamento entre o meu relógio e as marcações oficiais, baralhavam as contas que tinha estado a fazer até aí. Até aí, achei que talvez conseguisse fazer quatro horas e cinquenta. Nesta fase, percebi que estava com 700/800 metros de diferença do real. O que, naquele ritmo, seriam facilmente 5 ou 6 minutos de diferença. Comecei a achar que não ia conseguir fazer menos de cinco horas e isso mexeu comigo e desmoralizou-me. Tinha estado até aí tranquila da vida e confiante, mas foi pura burrice não ter feito estas contas mais cedo. Agora era tarde para recuperar... Foi assim que decidi que os últimos três quilómetros tinham de ser feitos a correr. E foram. Devagar, mas foram.

Lá segui eu na minha vida, a ultrapassar mais do que a ser ultrapassada, a continuar a receber os incentivos dos espanhóis. Nesta fase também ajudou, e muito, ver que o louco mais louco que eu, voltou para trás para me vir buscar. Estava no quilómetro 40, quase 41, acho, quando ele apareceu em sentido contrário. Mesmo depois de eu lhe dizer para não o fazer. Quem é que faz uma maratona, descansa e alonga, e depois volta para trás e faz mais uns quilómetros? Gente louca, claro. Mas as fotos falam por si.




(vamos embora, que agora é sempre a subir até à meta...)


Também foi muito bom sentir o apoio de quem estava a torcer por mim. Eu não lia as mensagens mas sabia que elas estavam a chegar. Sabia que havia quem estivesse a acompanhar a prova ao vivo. E foi tão bom e tão confortável saber que tinha gente a torcer por mim! 

Corria eu já no último quilómetro, quando o meu telemóvel começou a tocar. Soltei mais um palavrão (ups!) mas obriguei-me a não ver quem me estava a ligar. Passou-me tudo pela cabeça. Sabia que a qualquer momento podia chegar uma má notícia de Lisboa e tive medo disso. Mas também sabia que se fosse isso, não havia nada que eu pudesse fazer e eu tinha uma maratona para acabar.

E tinha. Já faltava pouco. Eu só queria acabar. Estava imenso calor. Estava cansada. Só queria chegar à meta. E já faltava tão pouco!

A fase final tinha outra vez imensa gente a apoiar. Palmas, incentivos, gritos de apoio.

Entrámos na recta final. Que era a subir, claro. Se começámos a subir, tínhamos de acabar a subir, pois claro.


(a foto do meu fotógrafo privado)


(a foto que, ao mesmo tempo, o fotógrafo profissional tirava)

Gostava de ter aqui uma descrição maravilhosa sobre como vi a luz, como foi uma experiência reveladora, que foram umas centenas de metros que passaram a voar e que eu adorei.

Mas não. Eu só queria chegar ao fim. Eu só queria passar aquele pórtico. Claro que me sentia feliz. Mas, ao mesmo tempo, estava como que anestesiada. Passei aquela meta e acho que só pensei: é isto? Já está? Dei uns passos, agarrei-me ao louco mais louco que eu, e fiquei ali uns momentos a olhar para o chão. A tentar absorver tudo o que tinha acabado de acontecer. Não pulei, não gritei, não chorei. Não consegui reagir. Passaram três semanas e acho que ainda não consegui reagir.



Ainda junto ao pórtico, peguei no telemóvel e vi que tinha sido o meu pai a ligar-me. Pensei o pior. Liguei-lhe. Perguntou-me se estava em pé ou sentada. Pensei mesmo o pior. Afinal, estava só a meter-se comigo para me dizer que se estava em pé era porque tinha corrido bem. Achava que eu tinha começado às nove, acreditava que eu faria menos de cinco horas, e achou que já me podia ligar. Matam uma pessoa do coração com estas coisas!...

Depois de refeita do susto, fomos buscar as medalhas e fazer a gravação do tempo. Foram exactamente quatro horas, cinquenta e seis minutos e dezassete segundos. Menos de cinco horas. Estava cumprido o objectivo.

(como é que eu acelerei nos últimos quilómetros que eram a subir? não sei...)

Quando, finalmente, li as mensagens do durante e as mensagens de parabéns quando acabei, não pude deixar de, mais uma vez, me sentir uma sortuda! E de ficar de lágrimas nos olhos, pois claro. Aí desse lado estão pessoas incríveis que me deram uma força tremenda e que tiveram um grande contributo em todo este processo. Já o disse, mas repito: esta medalha também é vossa!

Depois de mais umas fotos e de comer e beber o que ofereciam, era hora de regressar ao apartamento, de medalha ao peito. Ter marcado um apartamento a 1,5km da meta revelou-se muito sensato.Voltámos a pé, em modo recuperação activa.

E depois foi tomar banho, descansar, comer e beber. E tentar processar tudo o que aconteceu.

Sou maratonista. Fiz a minha primeira maratona. Se um dia me dissessem que eu chegaria a isto, eu não acreditava. Era pessoa para apostar que jamais tal aconteceria. Mas parece que sim.


22 de Abril de 2018 - EDP Rock'n'Roll Madrid Maratón - 4:56:17

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